Comentário sobre a Porção Semanal da Torá: “Vaigash” – Shavei Israel

In: http://casadosanussim.shavei.org/2010/12/16/espanol-a-declinio-para-o-egito-o-primeiro-exilio/

O Declínio para o Egito: O Primeiro Exílio

A história do povo Judeu está intimamente relacionada com a do Egito. O povo de Israel viveu dois exílios fundamentais: Egito e Pérsia. Ainda quando do pacto de D-us com Abraham, no qual surgi o povo de Israel, havia prometido D-us ao nosso patriarca: “Tens que saber que tua semente será estrangeira em uma terra que não é sua, e a servirá e martirizarão a tua semente durante quatrocentos anos”.

Em nossa parashá, Yaacov e seus filhos, que se sentem afligidos pela grande escassez econômica produzida em sua terra, escutam sobre a abundância que reina no Egito. Por isso decidem dirigir-se para lá, sem saberem que deste modo causam a si mesmos um exílio amargo e doloroso. Não se precaviam do que lhes poderá acontecer ao decidirem ir para o lugar onde tentarão uma nova sorte. A descida para o Egito é fácil, porém a saída dos judeus dessa terra, que somente vai acontecer várias gerações mais tarde, constituirá no fato mais importante da história do povo judeu. É fácil entrar no exílio, porém muito difícil sair dele.

Yaacov se dirige ao Egito para encontrar-se com seu amado filho Yosef. Vai de forma voluntária, afirmando: “irei vê-lo antes que eu morra”. Yaacov empreende sua viagem para o Egito, é surpreendido pelo medo diante do passo que estar por realizar. Apesar de sua decisão ter sido tomada, compreende de forma subconsciente que o passo que se dispõe a dar pode ter graves conseqüências sobre a vida de sua família e seu povo.

Recorda a seu pai Itzchak, quem também passou por um dilema semelhante, num momento em que imperava a fome na terra de Israel. Itzchak decidiu transladar-se com sua família ao Egito; D-us então esteve com ele e disse: “Não desça ao Egito. Viva nesta terra, e estarei contigo e te abençoarei”. Itzchak, o pai, não abandonou jamais a terra: nela nasceu, viveu e morreu. Yaacov interpretou esta conduta de seu pai como um sinal que lhe indicava proceder do mesmo modo.

Yaacov lembrou de seu pai e por isso estava duvidoso. Desejava continuar o caminho familiar, apesar da fome. Os pensamentos sobre o seu pai enchiam de dúvidas o seu coração: deveria abandonar a sua terra?

É então que D-us se dirige a ele e acalmando sua preocupação diz-lhe “Não temas em descer ao Egito, porque farei de ti um grande povo; descerei contigo ao Egito e te farei subir também”. Yaacov obedece  ao conselho de D-us e sua angustia se abranda. Yaacov temia que o exílio no Egito não fosse uma situação temporária, mas que mudaria fundamentalmente o destino do povo judeu, que teria que permanecer no Egito para sempre. Por isso, somente quando D-us lhe promete que acompanhará o povo durante seu exílio no Egito e depois o trará de volta à sua terra, Yaacov toma a decisão e parte para o Egito.

Assim como Abraham, que iniciou seu caminho abandonando sua terra da idolatria, para encaminhar-se à terra da liberdade e dos perigos, assim também, o povo judeu começa seu caminho como povo numa cultura idólatra.

A história do exílio no Egito constitui o marco no qual encontramos uma explicação para a escravidão.

O povo de Israel se dirige voluntariamente ao Egito, eram seres livres que buscavam se livrar da fome.

Foram atraídos ao Egito por um membro do povo, Yosef. A situação privilegiada que alcançou Yosef no Egito abriu às portas para a salvação do povo. Chegou à hora de cumprir o aviso que foi proporcionado a Abraham no momento do pacto com D-us: “Tens de saber que tua semente será estrangeira em uma terra que não é tua”. Nosso patriarca Yaacov sabia da existência desse aviso de D-us porque ouviu de seu pai Itzchak, ou de seu avô Abraham.

O exílio no Egito tornava-se um grande perigo para a continuidade do povo de Israel. Tanto os estilos de vida, como a cultura dos egípcios, eram muito distintos da dos membros da casa de Yaacov. O povo judeu seria capaz de viver entre eles sem assimilar-se?

O Egito desenvolveu técnicas muito avançadas para realizar gigantescas construções. Seus sábios e sacerdotes eram muito famosos. Entretanto, parecia que era justamente a sabedoria dos egípcios o que não permitia a assimilação dos filhos de Yaacov. Quando Yaacov e seus filhos chegam ao Egito, Yosef escolhe para eles a terra de Goshen, um lugar afastado do centro cultural do Egito. A razão que Yosef apresenta para concentrar e afastar os filhos de Yaacov do resto do povo, é que estes se dedicavam ao pastoril, ocupação que não era bem vista no Egito por razões religiosas. Ou seja, desde o começo, o afastamento geográfico e cultural dos filhos de Yaacov, determinou a falta de contato com os egípcios, evitando assim que se assimilassem, desde o ponto de vista social e cultural.

A cidade de Goshen, na qual residiram os judeus no Egito, foi o primeiro gueto da história de Israel. Este gueto era voluntário e tinha por objetivo afastar aos judeus da vida egípcia, permitindo-lhes assim, ter uma vida judaica.

A história do povo de Israel se caracteriza pelos desvios e divergências de seus caminhos. D-us prometeu a Abraham que seus filhos habitariam a terra de Canaã, porém até chegar este momento, deveriam suportar a escravidão no Egito durante vários séculos, para perambular depois pelo deserto também por vários séculos. O exílio no Egito constitui, na realidade, uma etapa intermediária entre os patriarcas e o nascimento do povo. O exílio era uma forma de retornar a Eretz Israel para apossar-se dela, recebendo-a como herança. Parecia que o caminho que deveria recorrer o povo judeu entre o momento da promessa e o de sua realização, seria um percurso largo e complicado. Parecia que o caminho que a providência nos revela é o mais prolongado e difícil, e não o mais breve.

Apesar do sofrimento e das dificuldades que caracterizaram o exílio de Egito, devemos admitir que constitui o crisol do povo Judeu. Durante o exílio, as doze tribos se converteram em um só povo, mediante o sofrimento compartilhado. Chegaram ao Egito divididos e saíram dele unidos.