Mário Soares e o Judaísmo – Breve lembrança do Presidente que pediu desculpa aos Judeus

Retrato oficial de Mário Soares da autoria de Júlio Pomar

Que pode um Judeu dizer de Mário Soares que não tenha sido já dito?

Parece-me que nada ou muito pouco, no entanto, conhecendo Mário Soares, como tive a ventura de o conhecer, há algo que julgo estar escondido num mundo de uma riqueza cultural e intelectual brilhante, intensa e vivíssima que é a questão religiosa.

Mário Soares era ou não religioso? Se sim porque não o assumia, se não porque se sentia tão atraído pelo problema religioso?

Não desejando especular muito sobre o assunto mas, de uma forma simplista, podemos afirmar que Mário Soares era um descendente da República anticlerical, talvez resultante da frequente ausência paterna, causada pelos problemas de uma intensa luta política, durante a sua infância e juventude.

Mário Soares era pragmático, porém, tal pragmatismo não o impedia de olhar para o mundo espiritual e ético. Fazia-o de uma forma muito intensa como o provam as suas fortes ligações às artes, à filosofia e à literatura, na qual era fortemente coadjuvado pela esposa, Maria Barroso.

Mário Soares compreendia o fenómeno religioso. Não uma religião que olhasse para a morte como uma benesse ou salvação, mas para a Vida.

Mário Soares era um homem que “adorava” viver. Viver com a dignidade que ele próprio desejava para toda a Humanidade e acreditava que a sua luta, assim como a de outros “Homens Justos”, tinha como objectivo essa dignidade e liberdade universal.

Esta era a sua Fé, a sua mais profunda convicção, o seu dogma.

Está muito longe da Religião Judaica? Não, não está.

O pragmatismo de Mário Soares aliado ao seu objectivo absoluto de Vida, Liberdade, Dignidade e Igualdade, aproxima-se inexoravelmente do conceito de Religião Judaica, nomeadamente dos conceitos fundamentais estatuídos por Maimónides (Rambam, Rabino Moshé ben Maimon) no Moreh Nevukhim (Guia dos Perplexos).

Para Rambam, a Sabedoria, a Vontade e a Razão são a base do Conhecimento, e como tal, a principal ligação entre o Homem e D’us.

Logo no início do seu Guia dos Perplexos, Rambam, assenta o seu pensamento em três pilares fundamentais: o Simbólico, o Imaginário e o Real que estruturam o Verbo ou a Acção.

Ora, perante estes conceitos básicos da Religião Judaica enunciados por Maimónides, quem não consegue sentir a presença absoluta e permanente de Mário Soares e a sua caracterização e atitude perante os fenómenos sociais, políticos e, naturalmente, os religiosos.

Muito haveria a dizer sobre este tema, porém, não cabe em meia dúzia de linhas lembrar a figura enorme de Mário Soares e indagar sobre os seus conceitos religiosos, não através da sua palavra mas da sua obra.

Para terminar, não o podemos fazer sem lembrar o grande e profundo gesto de Humildade, Justiça, Liberdade e Sabedoria que constituiu o momento em que, na Judiaria de Castelo de Vide, Mário Soares, então Presidente da República Portuguesa, pediu perdão aos Judeus e Cristãos Novos, pela perseguição de que, durante séculos, foram alvo em Portugal.

Nunca, até então, algum político no seu mais elevado cargo tinha tido, em todo o mundo, semelhante dignidade.

Mas, foi também Mário Soares quem estabeleceu relações Diplomáticas entre Portugal e Israel.

Os Judeus portugueses e arrisco mesmo a dizer, os Judeus de todo o Mundo nunca esquecerão tais atitudes de profunda nobreza de carácter de Mário Soares.

Mário Soares viverá sempre no nosso coração e na nossa memória.

Oeiras, 9 de Janeiro de 2017

António José Aguiló y Fuster Caria Mendes