Homenagem a Mário Soares na Mesquita Central de Lisboa

Decorreu ontem, pelas das 19h30, na Mesquita Central de Lisboa um jantar/tertúlia de homenagem a Mário Soares, para o qual a AAPI foi convidad e, naturalmente, compareceu com um texto dedicado ao homenageado.

Oradores:

José Vera Jardim (Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa)
Henrique Monteiro (Jornalista)
Guilherme d’Oliveira Martins (F. C. Gulbenkian)

Moderador:

Joaquim Franco (Sic Notícias)

Testemunhos de vários líderes religiosos

 Organização:
Clube de Filosofia Al-Mu’tamid, uma parceria entre:
– Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona
– Comunidade Islâmica de Lisboa (Comissão Social, Cultural e de Formação)

A cerimónia decorreu de uma forma muito agradável e num espírito de grande fraternidade.

Coube ao Presidente da AAPI, António José Caria Mendes, a honra de desencadear o debate partindo de uma questão inserida no seu texto:

Mário Soares era ou não religioso?
Se sim porque não o assumia, se não porque se sentia tão atraído pelo problema religioso?

Eis o texto relativo a Mário Soares apresentado pelo Presidente da AAPI:

Que pode um Judeu dizer de Mário Soares que não tenha sido já dito?

Parece-me que nada ou muito pouco, no entanto, conhecendo Mário Soares, como tive a ventura de o conhecer, há algo que julgo estar escondido num mundo de uma riqueza cultural e intelectual brilhante, intensa e vivíssima que é a questão religiosa.

Mário Soares era ou não religioso? Se sim porque não o assumia, se não porque se sentia tão atraído pelo problema religioso?

Não desejando especular sobre o assunto mas, de uma forma simplista, julgo poder afirmar que Mário Soares era um descendente da República anticlerical, talvez resultante da frequente ausência paterna, o Dr. João Soares, durante a sua infância e juventude, causada pelos problemas de uma intensa luta política levada a cabo por seu pai,.

Mário Soares era pragmático, porém, tal pragmatismo não o impedia de olhar para o mundo espiritual e ético. Fazia-o de uma forma muito intensa como o provam as suas fortes ligações às artes, à filosofia e à literatura, na qual era fortemente coadjuvado pela esposa, Maria Barroso.

Mário Soares compreendia o fenómeno religioso. Não uma religião que olhasse para a morte como uma benesse ou salvação, mas para a Vida.

Mário Soares era um homem que “adorava” viver. Viver com a dignidade que ele próprio desejava para toda a Humanidade e acreditava que a sua luta, assim como a de outros “Homens Justos”, tinha como objectivo essa dignidade e liberdade universal.

Esta era a sua Fé, a sua mais profunda convicção, o seu dogma.

Está muito longe da Religião Judaica? Não, não está.

O pragmatismo de Mário Soares aliado ao seu objectivo absoluto de Vida, Liberdade, Dignidade e Igualdade, aproxima-se inexoravelmente do conceito de Religião Judaica, nomeadamente dos conceitos fundamentais estatuídos por Maimónides (Rambam, Rabino Moshé ben Maimon) no Moreh Nevukhim (Guia dos Perplexos).

Para Rambam, a Sabedoria, a Vontade e a Razão são a base do Conhecimento, e como tal, a principal ligação entre o Homem e D’us.

Logo no início do seu Guia dos Perplexos, Maimónides, assenta o seu pensamento em três pilares fundamentais: o Simbólico, o Imaginário e o Real que estruturam o Verbo ou a Acção.

Ora, perante estes conceitos básicos da Religião Judaica enunciados por Maimónides, quem não consegue sentir a presença absoluta e permanente de Mário Soares e a sua caracterização e atitude perante os fenómenos sociais, políticos e, naturalmente, os religiosos.

Muito haveria a dizer sobre este tema, porém, não cabe em meia dúzia de linhas lembrar a figura enorme de Mário Soares e indagar sobre os seus conceitos religiosos, não através da sua palavra mas da sua obra.

Para terminar, não o podemos fazer sem lembrar o grande e profundo gesto de Humildade, Justiça, Liberdade e Sabedoria que constituiu o momento em que, na Judiaria de Castelo de Vide, Mário Soares, então Presidente da República Portuguesa, pediu perdão aos Judeus e Cristãos Novos, pela perseguição de que, durante séculos, foram alvo em Portugal.

Nunca, até então, algum político no seu mais elevado cargo tinha tido, em todo o mundo, semelhante dignidade.

Mas, foi também Mário Soares quem estabeleceu relações Diplomáticas entre Portugal e Israel.

Os Judeus portugueses e arrisco mesmo a dizer, os Judeus de todo o Mundo nunca esquecerão tais atitudes de profunda nobreza de carácter de Mário Soares.

Mário Soares viverá sempre no nosso coração e na nossa memória.

Oeiras, 7 de Fevereiro de 2017

António José Aguiló y Fuster Caria Mendes

 Na sequência deste texto, o Presidente da AAPI não pode deixar de relembrar a esposa de Mário Soares, a saudosa Doutora Maria Barroso, da cumplicidade na luta pela liberdade em que ambos viviam e, relembrando as suas características morais e de grandes lutadores pela democracia, recitou um poema em que ambos se reviam, para além de ser o texto que mais marcou a Doutora Maria de Jesus Barroso e pelo qual nutria uma especial devoção:

CÂNTICO NEGRO

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!