Rabino Eliahu Birnbaum – Parashat “Vayikra”: O Sentido do Sacrifício – A Casa dos Anussim

In: http://casadosanussim.shavei.org/2017/03/30/o-sentido-do-sacrificio/

Estamos iniciando a leitura do Livro Levítico (Vaikrá), o terceiro do Pentateuco. O Livro Levítico nos transporta a um mundo novo: o dos sacrifícios, tema principal que aparece em forma explícita e detalhada ao longo do Livro.
O Livro de Gênesis nos levou através dos primeiros passos da história do Povo Judeu. O Livro do Êxodo nos fez conhecer os acontecimentos fundamentais do Povo: a dispersão e a redenção. De agora em diante trataremos da vivência judaica, o lar judaico em todos os seus detalhes. Nos livros de Gênesis e Êxodo estávamos no campo da história. No Levítico entramos no campo da lei e dos preceitos.

A Tora não dá detalhes nem maiores explicações da necessidade dos sacrifícios e por isso mesmo, são inúmeras as interpretações posteriores. Distintos investigadores e intérpretes judeus tentaram compreender qual o objetivo dos sacrifícios e por que a Torá ordenou fazê-los.

Apesar do homem moderno estar bem afastado real e espiritualmente dos sacrifícios, devemos estudar e compreender o significado deste preceito, que durante gerações ocupou uma importância central na vida do Povo de Israel.

O primeiro sacrifício do qual temos conhecimento, é o de Caín e Abel. Quando ambos realizaram seu sacrifício, não estavam cumprindo com um mandamento, mas apenas obedecendo a uma necessidade interior: a de dirigir-se a um ser transcendental durante sua vida. Essa primeira vez não foi realizada para expiar um pecado, simbolizando que foi uma necessidade psicológica e religiosa do homem e não uma necessidade de D’us.

Apesar dos primeiros sacrifícios realizados no mundo terem se baseado nesta necessidade natural e, portanto, quem os realizava o fazia da maneira que mais lhe parecia adequada, a Torá considerou necessário regulamentar a forma que se devem realizar os sacrifícios e assim guiar o homem em sua vida religiosa.

Penso que o sacrifício está relacionado com três elementos: a entrega, a representação simbólica e a aproximação.

O primeiro elemento em todo sacrifício é a entrega, quando o homem renuncia uma propriedade sua para entregá-la ao Criador. A Torá não diferencia entre os distintos tipos de entrega: “Um dá pouco e outro dá muito; o importante é que seu coração aspire ao Céu”. Na realidade, o tipo de sacrifico não tem importância e sim o esforço que a pessoa faz para renunciar a uma parte de suas propriedades.

Logo, às vezes, tem mais valor o pequeno sacrifício de um homem pobre e sua oferenda lhe é muito valiosa, que um grande sacrifício de um homem rico.

As oferendas educavam o espírito e o coração do homem. O “korban” concedido a D’us requeria, principalmente, à vontade do homem. Não importa se sua oferenda era maior ou menor, mas se a intenção era pura ao trazê-la a D’us.

O segundo enfoque que encontramos é a representação simbólica, já que o sacrifício representa uma oferenda pessoal, como se na realidade o executor fosse o sacrifício. O homem quando realiza uma oferenda, deve considerar que ele mesmo deveria estar subindo ao altar do sacrifício. Isso significa que o animal oferecido não é o que expia a culpa, mas sim o coração do homem que o oferece e sua decisão de não voltar a pecar. O efeito psicológico que se espera da cerimônia do sacrifício e o simbolismo relacionado com o mesmo, é despertar o arrependimento do pecador e sua conseqüente revisão moral e espiritual.

O terceiro elemento, a aproximação, se expressa na execução do sacrifício como ato religioso, cujo propósito é a aproximação e a união com a Divindade. A religião se caracteriza pela aproximação com o objetivo religioso e não apenas pela fé. Em toda religião existe o aproximar-se e o afastar-se. D’us está próximo do homem se partimos do ponto de vista subjetivo e pessoal, e D’us está longe se o ponto de vista for prático e material.

O objetivo do sacrifício é a criação de uma experiência religiosa, uma experiência de aproximação.

A palavra hebraica para referir-se a uma oferenda ou a um sacrifício é “korban”, que vem da raiz da palavra “karav”, aproximar. Logo “korban” pode ser entendido como o que está próximo ou o que se aproxima.

Com o “korban”, se elevam os quatro elementos da natureza para D’us. A espécie animal que é o próprio sacrificado, a mineral que é o sal que acompanha o “korban”, a vegetal que são as farinhas e o vinho ofertados a D’us junto com o animal e finalmente, a racional que é o próprio homem que traz o “korban”.

Tudo indicava a elevação, a aproximação dos elementos da criação Divina a  D’us.

O sacrifício é um símbolo da aproximação entre D’us e Israel. Simboliza também o reconhecimento de que D’us é o Senhor de todo o mundo e devemos agradar-Lhe por tudo o que possuímos.

Uma das explicações mais conhecidas sobre a razão dos sacrifícios, está na representação da luta da torá contra o paganismo. Maimônides assegura que a Torá não mudou a maneira exterior do sacrifício, apenas modificou a atitude interior. Em vez de sacrifícios realizados perante vários deuses, eles são realizados a um D’us único, limitando-se também o lugar permitido para que se realizem tais oferendas, o Templo, anulando com isso, o paganismo e o costume de realizar sacrifícios em altares espalhados por todo o território.

Desta maneira, o livro Vaikrá transforma radicalmente o rito pagão de sacrifícios de animais e utiliza-se deste ritual para enfrentar o ser humano com a violenta contradição existente entre seu apetite carnívoro e a designação de D’us de que a vida é sagrada. O sacrifício de animais, que no passado serviu para impulsionar magia, sadismo e gula se converte em um ritual de expiação cumprido por sacerdotes do Templo.

É evidente que a opinião de Rambam despertou diversas reações entre distintos intérpretes que não concordaram com a opinião, que o único objetivo dos sacrifícios era a luta contra o paganismo, sem outro importante motivo.

Os sacrifícios representam um problema moral para muitos judeus de nossa época. Atualmente, quando o homem procura aproximar-se mais e mais da natureza, e existem diversas organizações de defesa aos animais, surge a pergunta sobre a renovação dos sacrifícios, mas ainda não está claro como serão recebidas entre o povo.

Apesar das dificuldades que possam surgir, é necessário destacar que os sacrifícios constituem um dos preceitos fundamentais da Torá e estão incluídos dentro das aspirações do povo judeu com respeito à redenção e ao Terceiro Templo.

O Rav Kook tinha a opinião que enquanto o povo judeu não retomasse a necessidade de renovar a cerimônia dos sacrifícios, estes não se tornariam uma realidade. Somente quando o povo compreenda a importância e a essência deste ato, o sacrifício voltará a ser um dos costumes do povo judeu, como foi na antiguidade.