Aristides de Sousa Mendes, Bordéus

Diz o Talmude, o livro sagrado do judaísmo, que quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. Ora, o cônsul português em Bordéus durante a II Guerra Mundial salvou a vida a milhares de judeus, sendo por isso condenado à miséria. Hoje, dá nome a um Airbus A319 da frota da TAP.

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A coragem, disse Aristóteles, é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras. Em setembro do ano passado, a TAP deu a um dos seus aviões o nome de um diplomata português que perfilha a dedução aristotélica. A firmeza ante o perigo e a perseverança mostrada num tempo intenso de crueldade, foram as grandes marcas da vida deste homem que viu a luz pela primeira vez em Cabanas de Viriato, a 19 de julho de 1885. Foi ele sozinho, e não mil homens, que executou a maior operação de salvamento durante o Holocausto. Ele, o herói inextinguível que esteve acima do momento chamava-se Aristides de Sousa Mendes. Humanista excecional e digno cônsul de Portugal em Bordéus obedeceu à sua moral e aos seus valores e rejeitou a Circular 14 – o despacho subscrito pelo ditador António de Oliveira Salazar, de novembro de 1939 – que condicionava a esperança dos alvos do gatilho nazi. A ordem exprimia-se rigorosa; sem consultar o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), os cônsules de carreira estavam proibidos de conceder vistos a estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas, aos portadores de passaportes Nansen (documento de identificação pessoal reconhecido internacionalmente, emitido pela Liga das Nações a refugiados apátridas), aos russos e àqueles que apresentassem nos seus passaportes qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de origem; aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou daqueles de onde vinham. Em maio de 1940, a ditadura paria nova Circular, com instruções incongruentes sobre a concessão de vistos. No mesmo dia em que as tropas de Hitler marchavam sobre Paris, a 14 de julho de 1940, é expedida nova Circular, que vinha agonizar ainda mais a aflição dos refugiados. Aristides de Sousa Mendes pediu inúmeras autorizações, mas nenhuma solicitação sua seria admitida. Começou, então, por assinar passaportes em casos pontuais, sendo por isso ameaçado com a deposição do cargo. Porém, o cônsul não tremeu. Mais pesada do que a sua numerosa família para alimentar, e não obstante as intimações, era a angústia de ver aquela imensidão de gente amargurada esperando um milagre nas imediações do consulado.

Durante dois dias e três noites, em junho de 1940, Aristides retirou-se no seu quarto. O que fez lá não se sabe, mas provavelmente refletiu, rezou e conferenciou com a sua mulher. Certo é que finalmente o cônsul decidiu, na manhã do terceiro dia, salvar a vida de pessoas. Passou, vistos e mais vistos. Aos milhares. Sem pensar em si, na mulher ou nos 15 filhos do casal. Não se dando por satisfeito ainda saiu da cidade, dirigindo-se à fronteira onde a sua caneta continuou a cumprir a moral. Salvar. Salvar. Salvar.

Obrigado a regressar a Lisboa no mês seguinte, enfrenta um inquérito e depois de assinar uma nota de culpa, é sentenciado com um ano de inatividade. Prometem-lhe, contudo, o direito a metade do vencimento da categoria, devendo em seguida aposentar-se. Promessas falsas. Primeiro é-lhe instaurado um processo disciplinar e depois é afastado do corpo diplomático, nunca usufruindo da condição de reformado e ficando ainda por cima interditado de praticar advocacia. Solicita uma audiência, mas Salazar, o presidente do Conselho de Ministros nunca o recebeu.

Terminada a II Guerra Mundial e descoberta a ignomínia do Holocausto, o cônsul tem esperança de que a injustiça seja reparada, mas a pena mantém-se por teimosia do ditador contra o homem que lhe desobedecera. Nos anos seguintes, a família Sousa Mendes sobrevive parcamente, fazendo refeições esporádicas na Cozinha Económica, gerida pela Comunidade Israelita de Lisboa. Não chega. Em 1948, Aristides enviúva, casando com a francesa Andrée. A ruína vai-o sepultando. As contas acumulam-se. Não lhe restam meios de subsistência. Em abril de 1954, morre em Lisboa vitíma de uma trombose.

Em Léopoldville, na Bélgica, há quem recorde o seu gesto de grande humanidade podendo ler-se num jornal local e a propósito da sua morte a gratidão de um sobrevivente: “Un grand ami de la Belgique est mort”. Em Portugal não se ouve um pio. A carta que, entretanto, a filha Joana enviou ao primeiro-ministro israelita, David Ben-Gurion, surtirá efeito. No início dos anos 60, são plantadas na Floresta dos Mártires do museu Yad Vashem, de Jerusalém, vinte árvores em homenagem ao pai. Em 1968, o mesmo museu agraciará Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção – “Um Justo Entre as Nações”.

Quanto à sua pátria, só em 1988 é aprovada, na Assembleia da República, a reabilitação de Aristides. A antiga residência, a Casa do Passal, na sua terra natal, é classificada como Monumento Nacional e está finalmente em obras de recuperação, sendo pertença da fundação que leva o nome do cônsul. Reabilitar uma casa é também usar a chave da memória. E sem memória não existe futuro.

Por Miriam Assor

Publicado em Mar 1, 2015 in Partida – http://upmagazine-tap.com/category/partida/