“Queremos dar a conhecer Israel aos portugueses” – Entrevista do Presidente da AAPI ao Semanário “SOL

SOL

 

In: Semanário “SOL” – Separata “País positivo”, Ed. nº 82, 19 de Junho de 2015, pp. 18/19.

A Associação de Amizade Portugal-Israel (AAPI) passou por uma fase de pouca atividade. Em entrevista, António Caria Mendes, presidente da Associação, explica como está a procurar retomar a atividade e como procura estimular o interesse em Israel.

Depois de um período de inatividade, como estão a tentar revitalizar a Associação de Amizade Portugal-Israel?

Estamos a ressuscitá-la através da realização de alguns eventos, nomeadamente conferências, em parceria com algumas instituições como a Universidade Lusófona, a Cátedra de Estudos Sefarditas “Alberto Benveniste” da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o Núcleo de História da Medicina da Ordem dos Médicos. Procuramos, nesta fase, fazer a promoção da amizade entre os dois povos ou nações, Portugal e Israel, nas universidades para captar o interesse dos universitários porque pensamos que será para eles muito útil essa relação, não nos esqueçamos que Israel é a nação que, de longe, mais prémios Nobel possui. Portanto, conquistar o ensino superior é, de momento, o nosso principal objectivo e aquele onde com mais eficácia podemos intervir. Neste sentido, queremos alargar o âmbito das nossas actividades para outras áreas, nomeadamente para a literatura, as artes e as tecnologias ou ainda, a filosofia, a história e o turismo.

Não somos uma associação de judeus. Queremos que a AAPI seja uma associação aberta a todos quantos estejam interessados em aprofundar o seu conhecimento sobre Israel, as suas culturas e o seu povo e promover um relacionamento mais profundo entre as duas Nações.

A função principal da Associação ainda é desenvolver as relações bilaterais entre os dois países?

Sim, como anteriormente afirmámos, o objectivo principal da nossa Associação é promover uma maior relação entre os dois povos e fazemo-lo por vários meios, nomeadamente dando a conhecer o modus vivendi israelita aos portugueses. Não somos políticos nem religiosos, não queremos intrometer-nos nessas áreas que pertencem a ambos os governos, portanto o nosso caminho é diverso daquele, permitindo uma relação entre Israel e Portugal muito mais livre e directa. Em Portugal, devido às nossas condicionantes demográficas, sociais e económicas temos que adoptar uma estratégia diferente da nossa congénere israelita. Israel é um país novo e cheio de jovens prontos para a vida, no entanto, possivelmente graças ao nível etário e cultural dos portugueses, o maior interesse no nosso país, sobre a cultura judaica e israelita assenta na história dos judeus portugueses e sefarditas e na sua difusão pelo mundo. Desta forma, para atingir os nossos objectivos, temos, frequentemente, de utilizar a história como trampolim de apresentação de Israel e, por este meio, atender à realidade actual da relação entre os dois países. É ainda, frequente termos de recorrer à génese do pensamento e da religião judaica para que as pessoas que nos procuram, compreendam e se integrem na cultura israelita.

Tal desconhecimento julgo que tem muito a ver com o ensino de História de Portugal nas escolas. Eis alguns exemplos de ilustríssimos relacionados com judeus e cristãos-novos ignorados em Portugal:

Os judeus já estavam em Portugal muito antes da ocupação romana pois vieram para a Península possivelmente com os fenícios e os gregos. Lisboa foi conquistada por D. Afonso Henriques com um empréstimo financeiro de Yahia ben Yahia, a quem o rei Conquistador nomeou Rabino-Mor do Reino e seu “Ministro das Finanças”. Os descobrimentos ficaram a dever-se em grande parte aos judeus portugueses que os financiaram e aos cartógrafos judeus, nomeadamente a Abraham e Jehuda Cresques (Jaime de Mallorca), naturais daquela ilha mediterrânica e fundadores da chamada Escola de Sagres. Isaac Abravanel, estadista de D. Afonso V, filósofo, comentarista da Bíblia, é ainda hoje venerado e discutido em todas as comunidades judias do mundo. Dª Grácia Náci, fugida de Portugal no Reinado de D. Manuel, tornou-se Conselheira de Suleiman, o Magnífico, e a primeira pessoa do mundo a criar uma estrutura de apoio aos refugiados que, naquela época, eram os judeus fugidos às garras terríficas da Inquisição. António Nunes Ribeiro Sanches, médico, filósofo, e enciclopedista, natural de Penamacor, médico da Corte Russa e da Czarina Ana Ivanovna, médico-chefe do Corpo Imperial dos Cadetes de São Petersburgo, e membro da Academia de Ciências de São Petersburgo e de Paris. E, João Cidades Duarte, que ao abraçar a vida monástica se passou a chamar João de Deus, e Pedro Nunes, e Garcia da Horta, e Abraão Zacuto, de Salamanca, astrónomo e Historiador de D. João II, forte impulsionador da descoberta do caminho marítimo para a ìndia, e o filósofo Baruch Espinosa, e o pintor Pizarro, e tantos, tantos outros…

No futuro vamos tentar promover o conhecimento da relação e da história dos dois países no ensino secundário.

Sou professor e infelizmente noto que os jovens sabem pouca História, tendo grandes dificuldade em situar os factos no tempo e no espaço. E, neste caso, a questão é muito mais sensível porque as tradições judaicas são diferentes, no mesmo espaço e tempo, das tradições cristãs e desconhecendo esta, muito mais difícil é compreender a outra. Apesar de existir uma história muito próxima, os acontecimentos são vistos de maneira diferente entre as duas culturas.

Queremos dar a conhecer Israel em Portugal e as suas diferentes culturas. Israel tem uma multiplicidade cultural enorme que assenta em bases diferentes das do catolicismo. Em termos reais, é um mundo tão diversificado que permite perceber e aceitar a multiplicidade de religiões e vias religiosas o que, se traduz na prática, numa verdadeira e assumida democracia. Não podemos esquecer que, contra tudo o que é propagandeado, Israel tem no seu Parlamento, o Knesset, diversos grupos muçulmanos. Esta é uma das características que se deve valorizar para que as pessoas possam compreender melhor o mundo judaico e israelita. Assim, consideramos que defender e apoiar Israel é, acima de tudo, proteger e apoiar a Europa, e o mundo dito ocidental, contra movimentos extremistas que, longe de desejar criar um espaço de liberdade e aceitação, fomentam o ódio, a destruição e o caos entre os seus próprios irmãos.

Em Portugal existe no Parlamento uma boa Associação de Amizade com Israel constituído por pessoas dos diversos quadrantes políticos com uma actividade notável pró-Israel. A AAPI tem orgulho na relação de amizade que com aquela Associação estabeleceu e de ser no exterior a sua congénere.

Por fim, a Associação de Amizade Portugal-Israel orgulha-se de ter sido a primeira das associações de amizade com Israel europeias a assinar, no passado dia 10 de Maio, no Bundestag, em Berlim, a constituição de uma aliança cuja designação legal é European Alliance for Israel.