Património e História – Os judeus em Silves na Idade Média

Autor: José Manuel Vargas

23/07/2012, 13:39

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Descoberto perto de Silves o vestígio judaico mais antigo da Península Ibérica

A recente descoberta, no concelho de Silves, de uma lápide epigrafada em hebraico, com datação provável do séc. IV, veio recolocar a questão da antiguidade da presença dos judeus no Algarve e em Silves, em particular, bem como da sua continuidade durante o domínio islâmico (sécs. VIII-XIII). Na ausência, por enquanto, de outras evidências arqueológicas ou documentais para esse período, torna-se oportuno fazer uma breve síntese do estado actual do conhecimento sobre a comunidade judaica de Silves nos séculos XIII a XV, ou seja, desde a conquista cristã do Algarve, no reinado de D. Afonso III, até à expulsão dos judeus, no reinado de D. Manuel I.

Séc. XIII
A primeira notícia escrita conhecida sobre os judeus de Silves, encontra-se no foral dos mouros forros, dado a Silves, Tavira, Loulé e Faro, em 12 de Julho de 1269: “mando que nenhum meu cristão ou judeu tenha poder de fazer-vos mal ou força, mas quem for o vosso alcaide ele próprio vos julgue”. Poucos anos volvidos, em 1276 (14 de Fevereiro), numa carta de D. Afonso III, endereçada aos alvazis e concelho de Silves, confirma-se a presença de uma significativa população de judeus na cidade, pois controlavam alguns moinhos e fornos, cobrando 1/8 pela moagem e 1/20 pela cozedura. Os vizinhos cristãos protestaram e obtiveram um abaixamento para 1/14 e 1/30, respectivamente. Entretanto, os judeus estavam obrigados a pagar os dízimos à igreja. Muito provavelmente, esta comuna judaica vinha da época muçulmana.

Séc. XIV
Neste século, apenas um documento, mas de importância relevante, apesar de ser um resumo, nos testemunha a presença dos judeus silvenses. Trata-de uma carta de D. Pedro I, dada em 22 de Junho de 1366, e que confirma à comuna de Silves “todos os privilégios, foros, liberdades e bons costumes que sempre usaram ter”.

Séc. XV
A comuna dos judeus de Silves era ainda uma das mais importantes do Reino do Algarve e estava organizada como entidade administrativa e jurisdicional, com os seus próprios magistrados e oficiais e circunscrita num bairro, a chamada judiaria. Este bairro judeu situava-se, sensivelmente, entre as actuais ruas da Porta de Loulé, rua Dr. Francisco Vieira e rua do Mirante, encostado à muralha a oriente da Porta da Vila. Sabe-se que os judeus de Silves tinham a sua sinagoga e o seu cemitério (almocávar), mas ignora-se a respectiva localização precisa. O Livro do Almoxarifado de Silves (ed. C.M.Silves, 1984), de meados do séc. XV, faz referências ao “adro dos judeus” e à “rua que vai para a Judiaria”, bem como a vários judeus que eram não só mercadores e artesãos, mas também agricultores.
Nas chancelarias régias, encontram-se muitos documentos sobre os judeus e a judiaria de Silves, já referenciados por Alberto Iria (O Algarve e os Descobrimentos, Os Judeus no Algarve Medieval) e por Maria José Pimenta Ferro Tavares (Os Judeus em Portugal no Séc. XV) e que, sucintamente, apresentamos:

1417 – Soleima Galego, Isaac Sensol e Fabibe tinham vinhas no termo de Silves.

1442, Dezembro, 5 – O regente D. Pedro deu cartas de contratos a judeus artesãos (Josepe Alore e Abraão Marquoixi, ferreiros; Salomão Tabay, Sem Tob Talavia e Judas Abenquabede, alfaiates; Judas Esperel e Mosse Falesse, sapateiros).

1449, Dezembro, 18 – O regente D. Pedro confirmou os privilégios dados pelos reis anteriores à comuna dos judeus da cidade de Silves.

1450, Fevereiro, 18 – D. Afonso V substituíu Vicente Martins, escrivão da portagem, da judiaria e da mouraria por Filipe Lourenço.

1450, Março, 10 – Carta de D. Afonso V, endereçada aos escrivães e rabis da cidade de Silves, faz mercê a Judas Neemias, morador naquela cidade, protegido do infante D. Henrique – e que devia estar ligado às actividades marítimas e comerciais do infante – de diversos privilégios e isenções: não pagar sisão, nem pedidos e peitas que pagam os outros judeus, nem sisa lançada pela comuna dos judeus, nem outros encargos e que possa andar em besta muar de sela. Refira-se ainda que Judas Neemias exercia o cargo de ouvidor da comuna dos judeus de Silves.

1450, Maio, 11 – Carta de confirmação de contratos à comuna de Silves.

1451, Abril, 5 – Carta de perdão a Jacob Esperel de queixa que dele dera Judas Neemias porque lhe dera muitas punhadas e o doestara de muitas e más palavras.

1454, Agosto, 1 – Judas Gaguim nomeado tabelião geral dos judeus do reino do Algarve

1455, Julho, 8 – Referência a Sem Tob Abroz, morador em Silves

1455, Dezembro – Referência a Salomão Alcabez e Mosse Alcabez, alfaiates.

1461 – O rabi dos judeus era Taba e teve licença para aforar uma tenda.

1471 – Carta de perdão a Samuel Cohem, porque seu sobrinho Isaque Alcabez, em seu poder e no serviço de alfaiate, foi por si castigado e agredido com punhadas e com uma tesoura, sem o ferir, mas veio a falecer ao cabo de uma hora. Foi preso e fugiu do castelo de Silves. Foi servir para Arzila na companhia de Afonso de Vargas, morador em Sevilha. O perdão das partes refere a família do judeu falecido: Dona Ouro, mãe, Aljofar, avó, Amada, tia, Cinta Alcabez, tia, Mousem Samuel, avô, Juda Alcabez, tio, Ester Cohen, tia, Moussem Azabam, tio, Faz Bona, tia, Salomão, tio, Moussem, primo.

1480, Fevereiro, 20 – D. Afonso V liberta os judeus de Silves de alguns encargos mais pesados.

1487, Fevereiro, 27 – Isaac Alferce pretendia comprar uns moinhos, junto à Portela da Gafaria, mas o aforamento deles foi feito a Diogo Valarinho, escudeiro.

1492 – O vedor dos judeus era Jacob Cohen.

1493 – Referências à família de Moisés Carrasco: Rina, Clara, Estrela, Jacob, Samuel, Cinfana, Juda.

Quando, nos primeiros dias de Dezembro de 1496, D. Manuel manda publicar o édito de expulsão dos judeus e mouros do Reino, a comuna judaica de Silves mantinha uma numerosa população que foi surpreendida com a ordem para abandonar o reino, até finais de Outubro de 1497, sob pena de morte e confisco de bens. Não sabemos, ao certo, se houve judeus de Silves que permaneceram por se terem convertido, ou se houve baptismos forçados de menores de 14 anos, nesta cidade. O que se conhece é o destino da sua sinagoga. Foi aforada como casa particular a Fernão de Morais, moço da câmara de El-Rei (Chanc. D. Manuel, Liv 31, fl. 75v).