OS JUDEUS EM TRÁS-OS-MONTES

Por: António Pimenta de Castro (1)
In: http://lelodemoncorvo.blogspot.pt/2012/01/os-judeus-em-tras-os-montespor-antonio.html
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Tia Olívia Tabaco

Dedico este meu artigo à Tia Olívia Tabaco (2) , possivelmente a última rezadeira (3) judaica de Vilarinho dos Galegos(concelho de Mogadouro), a quem vi acender as “candeias do Senhor”, às sextas-feiras à noite, com torcidas “rezadas”, na velha cozinha da sua modesta casa, “pintada” com as negras cores da lareira, de muitos e rigorosos Invernos nordestinos e que me ensinou muitas tradições do seu povo e rezas ao seu Adonai.

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Casa Trasmontana

Tenho pela memória da Tia Olívia, um carinho muito especial, na verdade ela partilhou comigo aquilo que tinha de mais precioso, a memória do Seu Povo, a Tradição, a angústia de viver praticamente sozinha a sua terna mas firme religiosidade…Vi, comovido, as lágrimas de saudade a escorrerem pela sua face quando me falava do seu tempo de mocidade, do tempo dos velhos marranos, rosto curtido por muitos Invernos, mais parecia um velho pergaminho…Que Adonai esteja sempre consigo Tia Olívia, no lugar onde estiveres, e quando fizeste a tua última viagem, finalmente para junto dos teus antepassados, do povo de Moisés, do Teu povo, sei que foste acompanhada por tantas Luzes como aquelas que tu acendestes a ELE, rigorosamente, todas as sextas-feiras à noite, nas velhas candeias de azeite puro e com as torcidas rezadas (como só tu a sabias rezar), como quem desfia um rosário…

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Menora

Não se sabe ao certo a vinda dos primeiros judeus para o território que hoje é Portugal. São inúmeras as lendas que vários autores aludem, mas que precisam de uma confirmação histórica incontestável. Por isso apenas vamos falar da sua vinda, com provas concretas e comprovadas com documentos.

  Vamos pôr de parte lendas que, não passam disso mesmo. Como escreveu a Sr.ª Professora Maria José Pimenta Ferro:“Desde cedo, na Península Ibérica, existiram judeus. Viessem eles como comerciantes no tempo de Salomão, ou como fugitivos no tempo de Nabucodonosor (ou seja, em 587 antes da nossa actual era), ou, mais tarde, durante o império romano, a verdade é que as suas comunidades apareceram aqui e a sua origem mergulha na escuridão do tempo e na confusão das lendas e tradições.

Pertence ao século III da nossa era, o mais antigo documento escrito relativamente aos judeus na Península Ibérica, e é do século VI, o mais antigo vestígio que nos fala deles, no nosso território. Trata-se de uma lápide funerária, encontrada em Espiche, perto de Lagos” (4). Contudo, esta questão não é pacífica, escreveu recentemente (Outubro de 2009) Carsten L. Wilke: “Fora da capital provincial, estelas antigas de judeus lusitanos foram encontradas em Villamesías (perto de Tujillo) e, há uma vintena de anos, em Mértola, a antiga Mytilis, no Alentejo. Essa pedra é o mais antigo testemunho da presença judaica no actual território português. Mas ela é – lá está – muito incompleta; da inscrição, ornamentada por uma menorah (candelabro de sete braços hebraico) gravada, não resta senão a parte inferior, comportando uma datação em língua e calendário latinos: die quar (ta n) onas octo (bri)s era DXX,  o que corresponde a 4 de Outubro de 482. O costume de redigir as inscrições funerárias em língua hebraica só se difundiu quatro séculos mais tarde. Assim, os dois epitáfios hebraicos encontrados em Espiche, perto de Lagos, tidos durante muito tempo como o mais antigo vestígio judaico em Portugal, não podem manifestamente datar do século VI como pretendem os manuais, pois o seu vocabulário é nitidamente característico da Alta Idade Média”(5). No período do reino Visigótico, poderemos distinguir dois períodos distintos, um primeiro, de tolerância religiosa, como escreveu Carsten L. Wilke: “Durante a primeira década do século IV, os bispos ibéricos, reunidos em concílio em Elvira, perto de Granada, tentaram impedir práticas que parecem testemunhar uma boa vizinhança entre judeus e cristãos: estes últimos, clérigos e laicos, deixavam-se convidar para os festins dos judeus; um costume consistia mesmo em fazer benzer os campos por um adepto da Lei de Moisés. O concílio insurgiu-se em particular contra o facto de judeus viverem maritalmente, ou em concubinagem, com cristãs(…)”(6). Esta tolerância vai mudar com a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 587. Em 613, o rei Sisebuto é o primeiro monarca visigodo a ordenar perseguições aos judeus, cujas circunstâncias ainda não estão bem conhecidas, outros reis godos lhe seguiram o exemplo. Segundo a historiadora Maria José P. Ferro segundo «alguns autores, este monarca (Sisebuto) ter-lhes-ia imposto a alternativa de se baptizarem ou de saírem para sempre do reino». Com estas perseguições, vemos os judeus a aliciarem os árabes a invadir a Península Ibérica. De facto, até ao desmembramento do Califado de Córdova, os judeus vivem num clima de paz, excepto alguns raros episódios, o mesmo não acontecendo durante a dominação dos fanáticos almorávidas e dos almóadas. Durante as guerras da Reconquista, vemos judeus tomarem o partido dos cristãos e outros dos mouros, lutando, por vezes entre si. Por isso, nesta altura, vemos, em reinos cristãos, grandes e ricas comunidades judaicas, é o caso do nosso reino, onde, no alvorecer da nossa nacionalidade, encontramos grandes comunidades. “Encontramos menção a uma presença judaica aquando da reconquista cristã das cidades de Coimbra (878), Santarém (1147), Évora (116 5), Beja (1179). A mais antiga dessas comunidades judaicas parece ser a de Santarém. Notemos que estas quatro cidades luso-islâmicas habitados por judeus são de fundação romana e estão todas situadas no interior do país, na proximidade da fronteira com a Cristandade. Em contrapartida, nenhuma fonte testemunha uma presença judaica em Lisboa durante a época islâmica”(7). Não há dúvida que os nossos primeiros reis protegem os judeus. Como é conhecido, poderemos concluir que os primeiros cinco reinados, os judeus viveram num clima de paz e protecção real. Prova disso é que os judeus, são denominados pelos reis de «meus judeus», o que indica uma certa protecção e dependência perante o rei. Como escreveu a Professora Maria José P. Ferro: “ Cedo são utilizados pelos nossos monarcas, como superintendentes na arrecadação das rendas públicas. É assim que Yahía Aben-Yaisch, primeiro rabi-mor, recebe, como recompensa do auxílio prestado a D. Afonso Henriques, na luta contra os mouros, importantes propriedades e a autorização para usar brasão ”(8). É o rei que lhes concede , através de uma carta de privilégios, permissão para a criação de uma comuna (9) , onde estão inscritos todos os privilégios. A título de exemplo, a chancelaria de D. Dinis, informa-nos da existência de algumas, como a de Bragança e Mogadoiro Como se pode ver no Mapa (comunas judaicas 1279-1383) da página 21 da historiadora Maria José Pimenta Ferro, no seu citado livro também aparecem em Rio Livre e Chaves 10).Já no século XV no mapa de comunas judaicas (só salientamos as transmontanas), aparecem-nos as seguintes: Moncorvo; Freixo de Espada à Cinta, Bemposta, Azinhoso, Miranda do Douro, Bragança, Vinhais, Vila Flor, Alfândega da Fé, Vila Real e Chaves ”. «Só em 1215, o concílio de Latrão ordena que os judeus se diferenciem dos cristãos pelo trajo ou por qualquer sinal exterior, e, também, que vivam em bairros próprios». Até aí usam-nos como aos cristãos para povoar o território. “A primeira ruptura foi o decreto de expulsão de 1496, transformada, pela força, em conversão geral no ano seguinte (…) A supressão brutal da presença judaica, até então reconhecida no país ”(11).Deixou de haver judeus e, os que cá ficaram, passaram a ser cristãos-novos, ou marranos, praticando, muitos deles o criptojudaísmo. Depois foi o massacre de Lisboa de 1506 e o Estabelecimento da Inquisição em 1536. Começa aqui o terror, o medo, mas também um culto encoberto, secreto que vai marcar as nossas terras e as nossas gentes e que ainda hoje, menos que antigamente, persiste, também no inconsciente colectivo das gentes transmontanas. Como vimos, a presença de Judeus no Nordeste Transmontano é muito antiga. “Toda a mancha fronteiriça do nosso território foi zona eleita pelos judeus para a sua fixação, intensificando-se ainda mais quando os ventos persecutórios da Inquisição Castelhana os empurraram para Portugal, nos finais do século XV. É certamente, a partir desta época que a diáspora judaica, no nordeste transmontano, se reforça, já que a notícia da sua presença nestas paragens se perde no tempo. Assim, e neste contexto, nos surge a vila de Mogadouro como um dos locais onde a influência dos Judeus foi notória, deixando marcas que persistem até aos nossos dias. Os usos, costumes, expressões linguísticas, topónimos, onomástica, actividades económicas, tudo nos atesta a força e persistência da cultura judaica em todo o nordeste e, concretamente em Mogadouro (…). O número de cristãos-novos da diáspora mogadourense vítimas da perseguição inquisitorial é impressionante”(12) . Sobre este tema, o terror da Inquisição no Nordeste Transmontano, mais concretamente em Sendim e Terras de Miranda, saiu recentemente um livro extraordinário do meu amigo Amadeu Ferreira, intitulado “Tempo de Fogo”, que é urgente ler. “O Rabino da Sinagoga de Moncorvo no tempo de D. João I, abrangia na sua jurisdição os judeus de Trás-os-Montes. A comuna de judeus de Moncorvo é uma das que concorreram, com várias outras, para o empréstimo lançado por D. Afonso V (1478) para as despesas da guerra” (13).Porque é que os judeus se fixaram nesta região?

Responde-nos Berta Afonso, na obra citada, página 608: “Ora, a zona do Nordeste Transmontano oferecia, neste contexto de instabilidade política, uma área propícia à sua fixação. Toda a ponta nordestina que vai de Vinhais, Bragança, Vimioso, Terras de Miranda, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta era, na época, zona de algum interesse comercial. Confinava com áreas economicamente activas e de ambiente político relativamente estável, Leão e Castela”. Outras terras serão dignas de referência, como terras de judeus, como Azinhoso, Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, Argozelo e Carção (classificada por António Júlio Andrade e Maria Fernanda Guimarães) como capital do marranismo. Aos judeus da Península Ibérica chamam sefarditas, de Sefarad nome Bíblico da Península Ibérica.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que fui a Vilarinho dos Galegos. Percorri a aldeia, como se fosse a Terra Prometida, mostraram-me onde se reuniam as rezadeiras (em Vilarinho dos Galegos, bem como na maior parte do nordeste, eram as mulheres que transmitiam a tradição), como colocavam as toalhas sobre a cabeça enquanto diziam as orações, que oração era dita ao benzer as torcidas para a Candeia do Senhor, como era feito o pão ázimo (cozido entre duas telhas novas) e com muito pouco, ou nenhum, fermento, como se benziam, os jejuns e as festas, a zona onde se concentravam mais os judeus, enfim, abriram-me a sua alma… alguns ainda comiam, sempre que podiam, comida Kocher. Mas não se pense que foi fácil… Lembro-me, a título de exemplo, de dois episódios que registei: Estando a Tia Olívia Tabaco a ensinar-me algumas orações (tenho três cassetes completas com essas orações), eis que aparece, ao cimo da canelha, um homem que vinha do amanho das terras, então a Tia Olívia colocou o dedo na boca, em sinal de silêncio, e começou a falar das suas doenças. Quando o homem desapareceu ela disse-me – “Este não é da nossa raça, é“chuço”(14) . O outro episódio foi o seguinte: tendo eu ido visitar uma Senhora encamada (ainda em Vilarinho dos Galegos) que me disseram saber muitas orações, a sua empregada, que estava acompanhada de outra senhora, desatou a fazer-me sinais dizendo-me: “Agora já ninguém sabe nada, morreu tudo e está tudo misturado. As que sabiam morreram, a Patata e outras antigas é que sabiam, mas já morreram todas, agora ninguém sabe nada”. No final da conversa com a senhora encamada, que nada me disse (apesar de eu estar acompanhado pelo meu saudoso Tio Mário Oliveira, seu grande amigo), a empregada, sozinha, acompanhou-me até à porta e disse-me:“Apareça daqui a meia hora na casa da Tia Olívia que eu digo-lhe algumas orações”. Assim foi: a dita senhora disse-me uma boa dúzia de orações e muito me contou dos rituais e tradições do seu povo. Sobre a Obra do Resgate, que foi implementada (também em Lagoaça e Vilarinho dos Galegos) pelo tão injustiçado capitão Barros Basto (Bem-Rosh), aqui mais concretamente pelo Moisés Abrantes, remeto-os para o meu artigo publicado no livro “Trás-os-Montes e Alto Douro – Mosaico de Ciência e Cultura”, páginas 267 a 269 lançado neste Setembro em Lagoaça.
Havia muito mais a dizer, mas o artigo já vai longo e o espaço que me foi concedido não “estica” mais…Ficará para um outro trabalho mais profundo. Quero, no entanto acabar este artigo com a oração rezada ao acender da Candeia do Senhor, às sextas-feiras à noite, pela Tia Olívia Tabaco:
“Bendito meu Deus, meu Senhor, meu Adonai, que nos mandou e nos encomendou com as suas santas encomendanças, benditas e santas, que acendêssemos esta torcida, para alumiar e festejar a noite santa do Senhor, para que o Senhor nos alumie a nossa alma e nos livre de culpas e pecados. Ámen, Senhor, Ao Céu vá”(15) .
Que o Criador lhe dê muita Luz Tia Olívia Tabaco, a Senhora o merece.

1 – Docente de História no Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorco, membro da Academia de Letras de Trás-os-Montes e correspondente da revista EPICUR.

2 – O nome Tabaco era uma alcunha. O nome da Tia Olívia era Olívia Rodrigues. Em Vilarinho dos Galegos e em outras aldeias, sobretudo em terras de cristão-novos (também conhecidos por marranos, veremos o que isso significa, ou criptojudeus, ou seja, que praticavam o judaísmo às escondidas), era vulgar as pessoas conhecerem-se por alcunhas.

3- Em Trás-os-Montes, e em muitas outras localidades que conheço, nas famílias de origem judaica, as tradições e as rezas, eram transmitidas pelas mulheres (os homens andavam no negócio, eram muitas vezes almocreves, comerciantes e, por isso andavam muito tempo longe de casa).

4- Maria José Pimenta Ferro, “Os Judeus em Portugal no século XIV”, página 9, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1979.

5 -Carsten L. Wilke, “História dos Judeus Portugueses”, página 13 e 14, Edições 70, Lisboa, 2009.

6 – Autor e obra citada na nota anterior, página 14.

7 – Autor e obra citada na nota anterior, página 17.

8 – Maria José Pimenta Ferro, “Os Judeus em Portugal no século XIV”, página 11. Guimarães & Cª.Editores

9 – Sobre como funcionava uma comuna judaica na Idade Média, consultar, entre outros o citado livro da Historiadora Maria José Pimenta Ferro.

10- Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Os Judeus em Portugal no século XV”, Universidade Nova de Lisboa, Volume I, página 75, 1982.

11 – Carsten l. Wilke, “O Que é a História dos Judeus Portugueses?”, página 8, Edições 70.

12-Berta Afonso “Subsídios para o estudo da comunidade judaica de Mogadouro”, Brigantia, Vol. V, N.os 2,3,4, de 1985.

13- Abade de Baçal, V Volume, das “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança, página XLIX.

14- “Chuço” é, em Vilarinho dos Galegos (pelo menos para a Tia Olívia), um cristão-velho, que não é descendente de judeus.

15 – Esta oração também foi recolhida pelo Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado e publicado no livro “Mogadouro – um olhar sobre o passado”, página126, Editado pelos seus herdeiros, Mogadouro, Maio de 1998 (que eu tive o privilégio de apresentar, juntamente com o Dr. Adriano Vasco Rodrigues e pelo Dr. Armando Calejo Pires.

Nota: este artigo foi publicado na revista “!bô”,nº 2