“Se houvesse alguém com uma faca nas ruas em Lisboa, o que faziam?” – Entrevista – DN

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Tzipora Rimon chegou a Lisboa em 2013| Leonardo Negrão / Global Imagens

In: http://www.dn.pt/mundo/entrevista/interior/se_houvesse_alguem_com_uma_faca_nas_ruas_em_lisboa_o_que_faziam_4838900.html

 

Em entrevista ao DN, a embaixadora de Israel em Lisboa, Tzipora Rimon, fala da violência das últimas semanas.

Fala-se cada vez mais em Terceira Intifada devido à violência das últimas semanas. Faz sentido?

Eu não uso a palavra Intifada. Ninguém em Israel a usa. Porque o que está a acontecer é muito diferente de outras ocasiões. Pode haver pedras nas ruas, facas, tiros… Mas não surge no vazio. Há muitos elementos que alimentam esta situação.

Este é um tipo de violência diferente, esfaqueamentos, fala-se em lobos solitários, sem treino dos grupos armados…

Em primeiro lugar, há uma infraestrutura de ódio. Não é de hoje, nem de ontem. Há discursos para jovens, seminários e até workshops. Como é que nos podemos sentar à mesa das negociações quando temos uma nova geração de palestinianos educada para odiar? Podemos sentar-nos com Mahmud Abbas, discutir. Mas ao mesmo tempo todos os livros incitam ao ódio. Além disso, há palavras-chave que são usadas: “ocupação”, “desespero”, “falta de esperança”.

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De onde vem essa linguagem? Da liderança palestiniana?

Vem da liderança, mas também dos meios de propaganda. Todos dizem a mesma coisa. De Mahmud Abbas, aos representantes palestinianos aqui em Lisboa, ou noutros sítios, mas também os jovens usam estas palavras-chave. Além disso, hoje há mais elementos – um deles é o que acontece na Esplanada das Mesquitas, a que nós chamamos Monte do Templo. Fala-se em mudança de statu quo, diz-se que Israel vai mudar. É mentira.

Como surgem essas notícias?

O aspeto religioso hoje é mais forte. Em todas as idades. Os elementos religiosos unem todas as pessoas. Nestes dias, só se fala no statu quo e que Israel vai mudar. Essa não é a política de Israel. Sempre dissemos que os muçulmanos têm todos os direitos para rezar lá. De vez em quando, quando há tensões, há restrições, por exemplo de idade, no acesso. É aberto a todos, mas as outras religiões não podem lá rezar – nem judeus, nem cristãos. Mas podem visitar. É o princípio fundamental. E neste momento é ainda mais importante usar este elemento para baixar as tensões.

A internet, as redes sociaistornaram muito mais fácil disseminar essas palavras, essas ideias?

Sem dúvida. Nos últimos anos há este impacto das redes sociais que são usadas de forma muito vasta. Há filmes no Youtube que são terríveis. Além disso a liderança palestiniana continua a elogiar os atacantes, a chamar-lhe “inocentes”. Um jovem de 13, 15 anos, vai matar outros jovens na rua e no fim ele é que é a “inocente vítima”? Se houver alguém com uma faca nas ruas de Lisboa, o que é que vão fazer? Esperar? Não, é preciso agir. Temos aqui uma situação nova. De culpa. Dos elementos do Hamas, do movimento islamita de Israel – há um setor muito radical que também encorajou estes ataques – e da Autoridade Palestiniana. A mesma que diz querer a paz, encorajou estes jovens, falou em “execuções”. É preciso parar com a incitação para não entrarmos noutra fase. Mas não falemos sobre isso. Isto ainda é uma coisa limitada.

Vai exigir uma resposta diferente de Israel? Bloquear Jerusalém Oriental vai ajudar a conter a violência?

Estamos a tentar encontrar uma resposta no local. A população israelita que já passou por isto muitas vezes, está muito madura para agir imediatamente. A ideia é haver mais presença das força
s de segurança, de forma dissuasora. A reação imediata muitas vezes é dos próprios cidadãos. Parar o atacante, travar a violência. Hoje temos muitas discussões. Não é fácil, há residentes dos arredores de Jerusalém Oriental que trabalham na cidade. Não queremos atingir a população civil palestiniana que não pratica estes ataques. Mas temos de proteger os cidadãos. Aumentar a segurança. Não necessariamente com a polícia ou o Exército, temos empresas privadas que podem também colocar elementos em autocarros, cafés, zonas públicas, como fizemos no passado. Em Israel quando entra num centro comercial tem de abrir a mala. Sempre. E vai aumentar o controlo.

As negociações de paz estão parado desde o ano passado…

Estão paradas desde abril do ano passado: quando Abbas chamou o Hamas para se sentar a negociar. Quando dizem isso é como se Israel não quisesse negociar. Não é verdade. Foi culpa dos palestinianos. Já tivemos uma base para continuar, com ajuda do secretário de Estado americano John Kerry, mas de repente Mahmud Abbas decidiu chamar o Hamas – que não reconhece Israel, nem quer a paz. Esse foi o elemento chave.

Ainda faz sentido falar numa solução de dois Estados?

Não houve nenhuma mudança de política. Dois Estados para dois povos: judeu e palestiniano. Mas é mais difícil hoje. Temos a experiência horrível da retirada da Faixa de Gaza, os mísseis…

A relação tensa entre Benjamin Netanyahu e Barack Obama é conhecida. O que espera Israel de um novo presidente dos EUA?

Não vamos falar do próximo. Temos ainda tempo. Em novembro Netanyahu vai a Washington, onde se reúne com o presidente Obama. Cada vez mais os EUA são o nosso aliado importantíssimo. É verdade que temos diferentes pontos de vista. Como no acordo sobre o nuclear do Irão, que tem de se implementar. Ou não.

O acordo sobre o nuclear ir
aniano é a maior preocupação de Israel?

Sim. O primeiro-ministro, a maioria dos peritos israelitas admitem que pode ter alguns pontos positivos. Mas toda a população – direita, esquerda -, ninguém acredita no acordo. Como é que podemos acreditar. Após a assinatura, já houve discursos contra Israel – contra os EUA também. Testaram um novo míssil e disseram que pode atingir Telavive. Onde está a moderação? E vão continuar com o programa nuclear. Não sei como é possível o controlo, a monitorização. No passado vimos que fizeram instalações subterrâneas que ninguém sabia. Além disso o acordo é de curto prazo. Dez, 15 anos. Por isso vamos continuar a falar com os países europeus, com os Estados Unidos. Para chamar a atenção. É muito perigoso.

O Estado Islâmico é uma das maiores ameaças à paz no Médio Oriente, Israel sente-se ameaçado por ele?

É uma ameaça global. Há vários elementos, Estado Islâmico, Al-Qaeda, que estão ocupados a lutar uns contra os outros. E [o presidente sírio] Bashar al-Assad também. Toda a região está muito frágil. Israel não tem uma intervenção direta na Síria, mas acompanhamos a situação com atenção. E preparamo-nos para todos os cenários.