Em memória do Doutor Samuel Ruah e da nossa querida Teté

Samuel

Os nossos queridos Samuel Ruah e sua esposa Esther, a nossa Teté. Fotografia disponibilizada no Instagram por Daniela Ruah. Clique na foto e ouça o Doutor Samuel Ruah a falar de si..

A VIDA É MUITÍSSIMO MAIS IMPORTANTE DO QUE A MORTE.

Publicado 11th March 2013 por Regina Botas
In: http://gina-vidaevalores.blogspot.pt/2013/03/a-vida-e-muitissimo-mais-importante-do.html

 

Quando fiquei viúva, a primeira coisa que eu tive de fazer, foi procurar um emprego. Tinha 5 filhos a meu cargo, todos a estudar e muitas contas para pagar. Graças a Deus, não foi preciso esperar muito. Ao fim de quase dois meses, comecei a trabalhar num consultório médico, situado na Rua António Augusto de Aguiar, uma das clínicas de Otorrinolaringologia mais prestigiadas de Lisboa.

O meu trabalho era ficar na recepção a tratar da correspondência, arrumar as fichas do dia anterior e procurar as fichas dos doentes que iam ser atendidos naquele dia. Simples e fácil de fazer. Exactamente o que eu precisava para me iniciar no mundo do trabalho. O ambiente com as minhas colegas de serviço era óptimo. As duas eram mais velhas do que eu e tratavam-me com grande amabilidade. Sempre que me viam triste e acabrunhada tentavam distrair-me e contavam-me histórias engraçadas para me animarem.

A clínica pertencia ao Dr Samuel Bentes Ruah, um otorrinolaringologista extremamente competente, que trabalhava em sociedade com o seu filho mais velho. Este era professor catedrático de Otorrinolaringologia na Universidade Nova de Lisboa e pai da actriz Daniela Ruah, hoje, uma grande estrela de Hollywood.

De todas as pessoas boas que eu conheci, nesse período negro da minha vida, o Dr Samuel foi quem mais me amparou e me deu coragem para andar para a frente. Por vezes, chamava-me ao seu gabinete, para me perguntar como é que eu estava. E quando eu dava voz à minha dor, ele ouvia-me com uma paciência de Job. Depois, num tom muito paternal, dava-me conselhos. Todos eles sempre bons. Carregados daquela sabedoria profunda que provém da experiência da vida.

Outras vezes, chamava-me para falar acerca dos textos que tinha publicado em determinadas revistas médicas, sobre os fundamentos bíblicos da otorrinolaringologia, e expunha as suas convicções éticas com base nas inúmeras obras de referência que tinha na sua imensa Biblioteca. A que ele mais gostava era a de Maimónides. Como judeu que era, tinha um orgulho desmedido nos princípios religiosos, sociais e políticos do Judaísmo que serviram de base à chamada civilização europeia e, fazia questão de lembrar, que a grande maioria dos prémios Nobel eram de origem judaica.

Naquela época, eu andava a tirar Ciência das Religiões e gostava muito de trocar impressões sobre a sua religião. Lembro-me especialmente de lhe ter mostrado um trabalho que fiz sobre um filósofo judeu chamado Baruch Espinoza. Ele leu-o atentamente, fez-me algumas observações e ficou bem orgulhoso de mim quando soube que eu tinha tirado 19 valores. Achava que, um dia, eu havia de ir longe com o meu trabalho intelectual e, dizia-o com uma convicção tal, que me marcou profundamente. Mesmo que isso nunca venha realizar-se eu sempre irei recordar as suas palavras com muita gratidão.

Por duas ou três vezes, parou na recepção, para me dizer que o meu pai devia ter muito orgulho em mim; que qualquer pai que tivesse uma filha como eu só podia sentir-se orgulhoso. Eu fiquei muito surpreendida. E deu-me vontade de rir. Não porque as suas palavras tivessem graça mas porque a minha realidade era outra. Bem diferente daquela que ele imaginava.

Em primeiro lugar, eu não via nada em mim que justificasse esse orgulho e em segundo lugar, o meu pai também não tinha a mesma opinião. Pelo contrário. As decepções que eu lhe dera ao longo da vida, eram muito maiores do que as razões que ele tinha para sentir orgulho em mim. Mas foi bom saber que havia alguém que não pensava assim; que olhava para mim sem ver os meus defeitos. Ou pelo menos, que não se centrava neles. Alguém que, por virtude dos muitos anos que já vivera, conseguia ver um bocadinho mais além e descobrir um potencial que nem eu própria sabia que tinha. Fez-me lembrar o amor de Deus, esse amor eterno e perfeito que não depende de nós para existir e que está sempre disposto a arriscar. Um amor que não tem justificação possível. Simplesmente é…

Uma vez ainda tentei explicar-lhe que não era bem assim, mas ele não me deu grande importância. Disse com toda a segurança, que tinha o dom de olhar para a cara das pessoas e ver logo se elas eram boas ou más. Herdara isso de sua mãe e nunca se enganava. Quando me viu pela primeira vez, não teve dúvidas. Eu era uma boa pessoa…

Para ele, a vida era muitíssimo mais importante do que a morte. Por isso, quando me via chorar pelos cantos, chamava-me à parte e dizia para eu não me entregar ao desgosto. Ainda havia de ter mais motivos para celebrar do que para chorar.

– Ah doutor, a morte é muito triste para quem cá fica, queixava-me eu desolada.

Mas ele não se rendia ao meu pesar. Com aquele seu ar de sábio antigo, respondia pausadamente, Isso é verdade. Mas a dor que a gente sente quando um dos nossos, parte, nunca é tão grande como a alegria de ver uma criança nascer. Quando o meu irmão morreu, a minha mãe fechava as janelas todas para não deixar entrar a luz do sol. A casa ficava mergulhada na penumbra. E nem sequer podíamos ouvir rádio. Era uma tristeza muito grande, percebes o que é… Mas quando o meu filho mais velho nasceu, a alegria que todos nós sentimos foi muitíssimo maior do que aquela dor. E tu, um dia, vais ver isso; vais compreender o que eu quero dizer…

E foi mesmo assim. Um ano e meio depois, eu casei de novo e fiquei grávida da minha Ester. E no dia em que ela nasceu, a minha alma alegrou-se profundamente. Mais do que alguma vez se entristecera. Porque, depois de ter passado pelo vale da sombra da morte, como diz o Salmo 23, Deus deu-me a capacidade de voltar a gerar a vida. Foi então, que eu consegui compreender perfeitamente aquilo que o Dr Samuel queria dizer. A vida é, de facto, muitíssimo mais importante do que a morte!