Inácio Steinhardt – SEDER DE PESSAH EM SANTA APOLÓNIA

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O “Tradewinds” em 1947

 

Lisboa, 4 de Abril de 1947.

Que aconteceu em Lisboa nesta data? Poucos estarão lembrados. Nas efemérides, apenas o início de um movimento grevista no sector naval, e poucos dias depois uma tentativa de golpe de estado, chefiada pelo almirante Mendes Cabeçadas. Os cidadãos envolvidos acabariam na prisão do Tarrafal.

E na CIL? Uma pista? Era véspera de Pessah. Os membros da Comunidade faziam os últimos preparativos para o seder tradicional, carne da shehitah, matsot, maror, vinho cacher do senhor Israel, nada fora do habitual.

Apenas a história que vou contar nada tem de comum. Também será muito difícil que alguém sequer tivesse conhecimento dela, na altura, pois passando-se ao nosso lado, ninguém podia saber o que estava a acontecer.

No cais de Santa Apolónia, estava atracado há duas semanas, para reparações, um pequeno navio americano, o “Tradewinds”.

Construído no Canadá, o “Tradewinds” já fora quebra-gelos no rio S. Lourenço. E já se chamara “Gresham”. Durante a II Guerra Mundial, foi lancha da Guarda Costeira, a patrulhar no Atlântico, contra submarinos inimigos.

Em fevereiro de 1947 foi baptizado “Tradewinds”  em Miami, na Flórida. Fora adquirido pela Haganah para transportar 1500 sobreviventes dos campos de concentração, que nenhuma nação queria receber e aguardavam em Itália a oportunidade para tentar iludir o boicote britânico e entrar clandestinamente na Palestina. Toda a operação tinha que decorrer no maior segredo, para não chegar ao conhecimento dos agentes ingleses.

O comandante não-judeu, contratado para a perigosa missão, esperava em Miami uma tripulação profissional. Quando viu uma dúzia de rapazes novos, que foram chegando de vários pontos dos Estados Unidos e cuja única experiência era, no melhor dos casos, terem servido durante a guerra na Marinha dos Estados Unidos, não queria acreditar no que o destino lhe preparara.

Também os voluntários, que iriam constituir a tripulação daquela casca de noz, quando olharam para o casco cinzento, também não acreditaram que “aquilo” fosse capaz de atravessar o Atlântico.

Tinham aceitado o desafio, com a promessa de que não receberiam um tostão de salário. Agora era tarde para voltar para trás.

Dali foram para Charleston, onde começaram as primeiras avarias e tiveram de perder um dia em reparações. Mau prenúncio. Aportaram depois em Baltimore, onde receberam mais alguns voluntários, meteram mantimentos, para a viagem até à Europa e para os refugiados, quando estes embarcassem na Itália e meteram-se a caminho. Max, Ketzelleh, Greenie, eram alguns dos nomes. Não eram precisos mais apelidos.

O meu amigo Murray Greenfield tinha acabado de regressar da Guerra, para onde fora mobilizado como soldado-marinheiro, quando um amigo, activista sionista, se lhe dirigiu na sinagoga. “Eles andam à procura de um tipo como tu”. Nessa altura, ele era apenas “a nice Jewish boy”. Depois de se certificar que era mesmo trabalho voluntário, que “eles” não pagavam, aceitou “alistar-se”.

Depois de uma curta paragem nos Açores, o navio atracou em Lisboa, onde o esperava o Captain Diamond.

Qual era o verdadeiro nome deste suposto representante da United Fruit Company? Tinha um passaporte canadiano, já se chamara Shaike Rabinovitch, Pinky, e sabe-se lá que mais. Afinal era Yehoshua Barahav, membro do Kibutz Guinossar, e membro da Haganah.

Carpinteiros trabalhavam a bordo, preparando o “Tradewinds” para o transporte de bananas. Prateleiras para o transporte de bananas? Ninguém fez reparo para o facto de que os cachos de bananas se transportam pendurados. Pois não são os americanos uns “atados”? Assim foi avançando, no porão do navio, a construção das tarimbas para os passageiros clandestinos.

Além do comandante e de um ex-menino de coro irlandês Hugh McDonald – “I was a yeshiva boy in Latin”, dizia ele – apenas o cozinheiro não era judeu. Augustine Labaczewski, mais conhecido por “Duke”, polaco e cristão, tinha aprendido a cozinhar numa padaria judaica, e até falava yidish, o que mais tarde seria uma grande vantagem, pois os voluntários judeus não tinham língua comum com a maioria dos refugiados.

Naquela sexta-feira, 4 de Abril, “Duke” lembrou-se de que era véspera de Pessah dos judeus, e perguntou-lhes como iriam fazer o “seder”. Qual “seder”? Ninguém se lembrava disso e até seria perigoso. O polaco não desistiu. Eles tinham que fazer um “seder”, custasse o que custasse.

Com ovos em pó ele fez uma imitação de matsá. Para “Gefilte Fish” faltava-lhe tudo. Mas passou o peixe pelo passador e fez almôndegas de peixe – “gehakte fish”, então não era? Garrafas de vinho, muitas garrafas de vinho não foi difícil de arranjar.

E o guarda-fiscal português, que, coitado, passava dia e noite no portaló, como mandava a lei? Contaram-lhe um “estória”. Era o dia dos anos do capitão. Queriam fazer-lhe uma festa de surpresa. Levaram-no para a ponte de comando, puseram-lhe um prato com comida e uma garrafa de vinho e um copo na mão, e foram para o porão fazer a festa. O bom homem não notou nada de extraordinário.

Murray lembra-se de ter perguntado o Má Nishtaná em Yidish. Mais do que isso ninguém sabia. Agadot não tinham, mas a tradição de contar a saída do Egipto tinha que ser cumprida. Baharav, agora “Captain Diamond” contou-lhes histórias das suas muitas missões cumpridas, a tirar judeus dos países árabes para Eretz Israel.

Mas cantaram muitas canções. Canções de um disco novo da guerra civil em Espanha (nas barbas de Salazar?) o Hino da Palmah, que estava então em voga, algumas canções de Eretz Yisrael, que sabiam e sobretudo cumpriram a mitzvah de “Arba Cossot”. Greenfield tem a certeza de que todos cumpriram, mas não se ficaram pelos quatro copos, talvez quarenta, pois todos ficaram bastante alegres…

Poucos dias depois um dos americanos envolveu-se numa querela num bar, e, na continuação, apareceram agentes da PIDE a bordo, “à procura de comunistas e terroristas.”. Quiseram saber a razão de terem escolhido Lisboa para os trabalhos de carpintaria. Diamond contou-lhes histórias sobre os negócios de bananas da sua companhia, explicou que em Portugal os trabalhos eram mais baratos e que eles iriam mandar mais navios para serem equipados em Lisboa, ofereceu charutos brasileiros, Mas os agentes insistiram em leva-lo consigo para ser inquirido.

O homem da Haganah não teve remédio senão acompanha-los. Ainda foi a tempo de passar uma ordem, em hebraico, para arrancarem mesmo sem piloto, assim que eles se afastassem, e quando estivessem ao largo, mandassem o guarda-fiscal para terra, num salva-vidas.

Quando os polícias viram o barco afastar-se do cais, agarraram o detido e encheram-no de pancada. Baharav, porém, era homem de recursos. Na sede, na António Maria Cardoso, retomou a sua história dos negócios de bananas. Ele tinha que voltar para Paris de onde daria ordens para mandarem mais navios para serem equipados em Portugal. Sobretudo, que lhe devolvessem o passaporte, que tinha sido apreendido. Acabou por ficar amigo do inspector. Anos mais tarde, quando uma companhia de combustíveis britânica se recusou a abastecer dois outros navios da Aliah Bet, atracados em Lisboa, ele telefonou ao seu “velho amigo” e a troco da promessa de uma propina, este resolveu o problema.

Nessa noite o “Tradewinds” atravessou o estreito de Gibraltar e foi atracar a Marselha. Aí estabeleceu contacto com agentes da Haganah e seguiram para a Riviera italiana, onde embarcaram os passageiros. O polaco Labaczewsky, yidishista, foi muito útil no encaminhamento dos refugiados. Para facilitar as comunicações deu como nome “Moishe Schneider”. Só os tripulantes continuaram a chama-lo por “Duke”.

Um avião britânico, que os sobrevoou, reconheceu o barco com imigrantes clandestinos, e deu o sinal para serem cercados no Mediterrâneo por unidades da marinha de guerra. “O vosso navio não está em condições de navegar. Entreguem-se, quanto mais não seja por razões humanitárias.”

Não se entregaram. Pelo contrário içaram a bandeira da Haganah e colocaram uma tabuleta com o novo nome do navio “HATIKVA”.

Acabaram por ser interceptados e transferidos para o navio-prisão “Empire Lifeguard”.

Quando o último dos prisioneiros desembarcou em Haifa e todos entraram nos autocarros, que os levariam ao campo de internamento britânico, ouviu-se uma forte explosão no “Empire Lifeguard”. Os voluntários tinham conseguido montar uma bomba, com componentes escondidos nas partes mais estranhas dos seus corpos. O navio-prisão afundou-se no porto.

Os sobreviventes dos campos de concentração foram levados da Terra Prometida para uma prisão britânica em Chipre. Alguns conseguiram voltar para a Palestina, ao abrigo de uma quota mensal que os ingleses iam concedendo. Os restantes só em 1948, depois da independência, fizeram finalmente a aliah.

Muitos dos voluntários acabaram por ficar a viver em Israel.

Entre eles, Murray Greenfield. Hoje octogenário, ele foi sempre um homem de iniciativas e de projectos de voluntariado. Foi ele que trouxe os primeiros judeus da Etiópia, jovens que conseguiu inscrever na Universidade de Telavive, para estudarem e mais tarde servirem de líderes da sua comunidade.

Ao mesmo tempo dedicou-se aos negócios, tornou-se negociante de propriedades e empreiteiro, fundou uma importante casa editora, hoje dirigida por seu filho. Ele é apenas “aitse geiber”, como ele diz em yidish, “conselheiro”.

Conheci o Murray quando ele me “mobilizou”, haverá uns 25 anos, para um projecto a favor do Museu da Diáspora, Beit Hatfussot. Desde então encontramo-nos em diversas circunstâncias. Mas Portugal nunca foi mencionado nas nossas conversas. Apenas sabia que ele estivera envolvido na Aliah Bet. Li a história do Seder em Santa Apolónia em outras fontes.

Contou-me agora.o Murray Greenfield que, apesar de todo o cuidado da tripulação em não serem conhecidos como judeus, ele foi o único que, por acaso e inesperadamente, falou com um judeu. Foi o relojeiro a quem comprou um Omega, e que lhe perguntou se era judeu, mas aceitou a sua versão de que estava em Lisboa como turista. O relojoeiro era ruivo… por isso só podia ser o meu descansado Pai.

Inácio Steinhardt

20/2/2005

Texto de Inácio Steinhardt inserido no Blogue de Paul H. Silverstone: “Aliyah Bet Project”