Inácio Steinhardt – Eliezer Kamenezky

Publicado em 26 de Janeiro de 2008
In: https://ishluz.wordpress.com/2008/01/26/eliezer-kamenezky/
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Eliezer Kamenesky

 

Os lisboetas do meu tempo, dos anos da segunda Grande Guerra, quando a capital era ainda uma cidade de costumes bastante provincianos, lembram-se com certeza daquele judeu russo, excêntrico, de longa barba, basta cabeleira, e olhar penetrante, calçando sandálias, que não podia passar despercebido.

Eu era garoto, mas lembro-me de o ter visto algumas vezes, em jardins e lugares públicos, reunindo à sua volta os passantes, à semelhança dos vendedores da “banha da cobra”, como o povo chamava então aos propagandistas de jardim.

Eliezer Kamenezky não vendia produtos. Ele procurava convictamente fazer adeptos para a sua crença num modo de vida são, ligado à Natureza, à alimentação natural. São ideias que hoje já estão muito na moda, e até com mais premência, num mundo cuja deterioração só agora se começa a reconhecer. Naquele tempo eram ideias exóticas.

Como veio Eliezer parar a Portugal?

Ele nasceu em 7 de Abril de 1888, em Bachmut, uma cidade da Ucrânia, hoje chamada Artemivsk.

Eliezer saiu de casa dos pais, Izak e Sofia Kamenezky, aos 15 anos, com um saco de viagens às costas, “para percorrer Mundo”.

Era comum, naquela época, em que o futuro se apresentava encoberto por nuvens negras para os judeus da Europa oriental, os jovens saírem de casa muito novos, para procurar terras mais prometedoras onde trabalhar e fazer fortuna.

Kamemezky, porém, era um sonhador, menos preocupado com a vida material, antes ansioso por uma vida de aventuras, como nas histórias que bebia sofregamente nos livros de Júlio Verne e outros relatos de viagens.

Em Odessa embarcou clandestinamente no primeiro navio que se lhe proporcionou, antes sequer de indagar qual o seu destino.

Desembarcou em Londres, onde não ficou muito tempo, pois, pouco depois já se encontrava no Novo Mundo.

Três anos passados, as saudades de casa levaram-no de regresso à Rússia. Em Odessa, estudou música e canto.

Mas não demorou muito a partir para novas aventuras.

Chegou-lhe às mãos o livro de um médico polaco, Moes Oskar Giella, sobre “Alimentação Paradisíaca”. A partir de então tornou-se um adepto fervoroso da Natureza e da alimentação natural. Tornou-se, segundo a sua própria descrição “fungívero”. Além dos cogumelos, comia muito arroz cozido em água e frutas.

A fase seguinte da sua vida foi no Médio Oriente. Embarcou para Beirute, e depois caminhou como um peregrino, de bordão na mão e saco às costas, até Jerusalém.

Uma noite, deitado na areia, ao luar, junto dos laranjais da que viria a ser a cidade de Rishon Le-Sion, contemplador e sonhador como todos os filhos da mãe Rússia, escreveu um dos seus primeiros poemas em prosa… em Yidish.

Seguiu-se uma autêntica tournée pela América do Sul. Sobretudo na Argentina e no Brasil, realizou conferências, enchendo salas, electrizando os ouvintes, que ia conquistando para o Naturismo.

A imprensa local acompanhou todas as suas deslocações com entusiasmo, entrevistando-o com frequência.

Um jornal judaico de Buenos Aires, «Die Yidishe Zeitung», pediu-lhe que se pronunciasse sobre o Sionismo, posto que ele tinha chegado do Médio Oriente. Kamenezky declinou pronunciar-se sobre um tema político. Mas não resistiu a fazer uma observação: ““Mesmo se os judeus não ansiassem pela Palestina, a Palestina anseia por eles.”,

Da América do Sul veio para Lisboa, em 1917. Era uma etapa apenas num percurso que havia planeado assim:em Agosto do mesmo ano partiria para o Porto, e depois prosseguiria por Espanha, França, Inglaterra, Suíça e novamente a Rússia.

Ele não sabia então quão difícil é a um estrangeiro passar por Portugal sem se deixar cativar pela hospitalidade singela, mas tão genuína, dos portugueses.

Eliezer Kamenezky terminaria ali a sua longa jornada.

Em Lisboa, vivia então na Travessa da Mãe de Água, 26-2.º e fazia prelecções públicas, para quem o queria ouvir, no Largo de São Domingos. Comprava fruta no antigo mercado da Praça da Figueira, e subia depois ao Jardim Botânico, à Escola Politécnica, a comungar com a Natureza.

Foi em Lisboa, já com a idade 45 anos, que ele fez o balanço da sua vida de aventuras: primeiro publicando um livro de poesia, «Alma Errante»; depois num romance autobiográfico, «Eliezer», que ficou no seu espólio, em manuscrito.

Em ambos esteve envolvido o poeta Fernando Pessoa.

Porque o judeu russo cedo fez amizades nos meios intelectuais e boémios de Lisboa. Acima de todos, foi Maria O’Neil, que muito o ajudou no aportuguesamento da sua escrita.

Fernando Pessoa, com quem ele se dava muito, escreveu o longo prefácio para as suas poesias. Prefácio estranho, pois não hesita em menosprezar a arte poética do prefaciado, justificadamente talvez, mas não é muito comum aceitar-se escrever um prefácio quando se não aprecia a obra.

Mas aquele texto de Pessoa focando a maçonaria, os judeus e os rosacruces, causou grande polémica na época. E, conhecidas como são as origens genealógicas cristãs-novas de Fernando Pessoa, não é menos estranho que tenha terminado o seu ensaio com a afirmação de que um judeu o não poderia ter escrito.

Quanto ao romance «Eliezer» reina ainda hoje densa neblina sobre o que se passou com ele. Um exemplar do manuscrito foi encontrado também na famosa arca do espólio de Fernando Pessoa.

Não li ainda nenhum deles, mas dizem-me que o de Pessoa apresenta algumas emendas sobre o do espólio de Kamenezky. Há quem pense que foi Pessoa que o escreveu. Uma pessoa da família de Kamenezky, que possui a cópia que foi deste, garantiu-me que não é assim. Em 1991, a escritora italiana Amina Di Munno, publicou uma tradução italiana da obra, apresentando-a como da presumível autoria de Pessoa.

O realizador António Lopes Ribeiro aproveitou a figura tão característica do judeu russo para figurar em papéis de relevo em três películas portuguesas: “Revolução de Maio”, “O Pai Tirano” e “Aldeia da Roupa Branca”.  Logo surgiram notícias fantasiosas, na imprensa portuguesa, de que o artista ora revelado havia sido convidado para desempenhar outros papéis em Hollywood!

Em 1933, na casa de Maria O’Neil, Eliezer conheceu uma professora alentejana, Arnilde Roque Penim, que ali tinha vindo tratar com a escritora de assuntos didácticos.

Entre Eliezer e Arnilde desenvolveu-se uma relação de amizade, que resultou em casamento, e com este consolidou-se definitivamente a sedentarização do nómada.

Esteve mesmo quase a deixar descendência em Portugal. Em 1939, a esposa engravidou e Eliezer escreveu à Comunidade Israelita de Lisboa, pedindo para registar a sua esposa.

A Comunidade pediu-lhe um comprovativo da conversão da senhora, a qual não tinha tido lugar e, de qualquer modo, a questão deixou aparentemente de ser relevante, porque a criança nasceu morta.

Entretanto, Kamenezky havia assumido uma vida quase de burguês, estabelecendo-se como comerciante de antiguidades em S. Pedro de Alcântara.

Não deixou, porém, de meditar e de filosofar. Os seus escritos e apontamentos testemunham uma transformação na sua concepção do Mundo.

Na sua juventude, havia sido publicamente peremptório no seu ateísmo (“Do nada, nada pode ser criado”), mas dizia-se profundo admirador de Cristo. Não acreditava que tivesse sido concebido numa virgem, mas escreveu: “Foi um homem superior e lutou, como eu luto agora, com a ignorância das multidões. O que mais me magoa, porém, não é o que ele sofreu, mas a adulteração que os jesuítas fizeram da sua divina doutrina.” (1917).

Em 1955, dois anos antes de falecer, deixou escrito um poema em prosa:

“DEUS: Alma, cérebro e consciência do Universo!

N’Ele tudo se movimenta e vibra, nada se perde, tudo se transforma, e perante as suas manifestações cósmicas, destruidoras ou criadoras, o homem sente-se mesquinho e impotente.

Então o ente que medita, vivendo neste grão de areia que flutua no mar revolto da eternidade, faz a pergunta eterna, a dolorosa e enigmática pergunta, sobre como e onde nasce tudo quanto nos rodeia. A noite e a abóbada celeste, as miríades de astros cintilantes e outros mundos, e a face pálida e triste da lua; e de dia, o bendito e sagrado sol, que nos dá a vida, a alegria, que nos aquece a alumia… sim, como e quem foi que tudo isto criou?

Depois de muito meditar e não querendo enlouquecer, cheguei a esta conclusão: o que não tem princípio nem fim não pode ser feito por ninguém.

A Bíblia reza que Deus, o Supremo Ser, criou o homem à Sua imagem e semelhança. Somos corpo do Seu corpo, sangue do Seu sangue, e alma da Sua alma.

Para nos considerarmos dignos de ser seus filhos, temos que cumprir fiel e escrupulosamente os seus divinos mandamentos e só, mas só assim, no seio de toda a Humanidade reinará a Fraternidade e a Paz.” [Eliezer Kamenezky” ,26/4/1955].

Foi mais ou menos por essa altura que Dona Arnilde, prevendo o pior, decidiu perguntar-lhe onde queria ser sepultado, quando falecesse, respondeu-lhe sem hesitação que “no cemitério israelita, claro”.

Faleceu em 1957, com 69 anos.

A esposa tratou para que fosse sepultado no campo santo dos judeus. Mas logo ali tomou a decisão de se converter ao judaísmo. Já que não pudera dar a Eliezer um filho judeu, ela queria também ser sepultada a seu lado, junto com os outros judeus.

Começou a estudar os preceitos do Judaísmo. Quando se considerou habilitada, viajou com a sobrinha, Dona Maria Ilda da Conceição Filipe (Penim), a Israel, para se converter.

Verificando, porém, que em Israel isso seria um processo moroso e complicado, viajaram as duas para Tânger, onde, após difíceis exames sobre religião no Tribunal Rabínico, conseguiu o seu desígnio.

Desde então frequentou a sinagoga da Rua Alexandre Herculano. E conseguiu de direito o seu intento de jazer no repouso eterno junto do marido.

Quando a Câmara Municipal de Redondo quis dar o nome de Dona Arnilde a uma artéria da vila, em reconhecimento pelas suas muitas obras de beneficência, ela pediu que o nome do marido também fosse mencionado.

Assim, na vila de Redondo, o nome do judeu errante da Ucrânia, ficou perpetuado, ao lado do da sua esposa alentejana, na Rua Arnilde e Eliezer Kamenesky.

Agradeço a D. Maria Ilda da Conceição Filipe (Penim) a gentileza com que me facultou muitas das informações que me permitiram completar este texto em memória de Eliezer Kamenezky.