Judeus da Guarda | E outros cristãos-novos das Beiras (Séculos XVI-XVIII)

João Manuel Braz, Academia de Letras e Artes, 2016, 302 pp. – 25.00€

Judeus-da-Guarda

Os estudos sobre a inquisição espanhola e portuguesa, sobre o seu Tribunal do Santo Ofício, bem como sobre a perseguição levada a cabo, durante vários séculos, contra a comunidade Sefardita em diáspora são, podemos dizê-lo, razoavelmente suficientes para permitir um quadro de compreensão histórica e jurídica de tais instituições, das suas políticas, e respectivos procedimentos. Sobre as suas vítimas, todavia, temos uma compreensão bem mais restrita, uma vez que os trabalhos que na especialidade tratam de processados pelo referido tribunal e inquisições o fazem de uma perspectiva selectiva, quer por que se busca uma personalidade concreta, distinta, que foi objecto da brutal repressão pelas suas ideias e procedimentos, quer por que se revela uma procura estritamente regional ou limitada no tempo.

O Laboratório de Estudos Judaicos, criado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa propõe-se, agora, levar a cabo uma tarefa de âmbito ciclópico, mas de inegável interesse histórico e sociológico: proceder ao levantamento sistemático e integrado das várias comunidades cripto judaicas, sefarditas, cristãs-novas, existentes em Portugal, numa primeira fase e, bem assim, no antigo Império Ultramarino, numa segunda, com vista a reconstituir os agregados familiares respectivos, identificar as suas inter-relações quer de âmbito nacional quer de âmbito transfronteiriço, tornando evidentes os processos de integração e de mobilidade social numa lógica diacrónica, explicitando, por conseguinte, o desempenho das actividades económicas e laborais dos respectivos agregados familiares, numa moldura de família extensa, identificando as estratégias tipificadas de cooperação e de identidade, ao mesmo tempo que se tornam evidentes as concertações ao nível da acção conjunta de acesso ao poder, primeiro local e, depois, nacional, da macro comunidade enquanto um todo até á sua dissolução por assimilação na nação portuguesa. Este propósito conclusivo só é possível mediante a construção progressiva de uma base de dados suficientemente enriquecida e completa sobre qual seja possível elaborar com os propósitos e perspectivas afirmadas, não se excluindo outras vias que a própria base proponha e permita realizar.

Na concretização deste ambicioso projecto científico o Laboratório de Estudos Judaicos recorrerá a colaboração graciosa de investigadores e académicos exteriores, supervisionando pesquisa e o seu resultado final de modo a garantir critérios de exigência e de uniformidade indispensáveis para se atingirem os objectivos propostos no seio da academia e da Universidade. O primeiro dos estudos que conhece a luz do dia deve-se à investigação do Doutor João Manuel Braz, ilustre colega da Universidade de San Francisco (Califórnia) e consagrado investigador no domínio da biologia molecular e da genealogia, com obra publicada em Portugal e no estrangeiro. As 10 linhagens que seleccionou para este volume primeiro, não esgotando o acervo documental primário e secundário relativo a judiaria da Guarda, integra um conjunto de vergônteas que se podem considerar estruturantes, além do interesse histórico específico que encerram, pois algumas delas conduzem a personagens tão relevantes como o são Fernando Pessoa, Lúcio Lara e Alda Lara. a dinastia dos “Grandees” da Sinagoga de Nova Iorque e, por casamento, António José da Silva “O Judeu”, apenas para citar alguns dos mais preclaros descendentes.

Posso desde já antecipar que os próximos volumes previstos incluirão os núcleos sefarditas de Serpa, Portalegre, Trancoso, Vila Nova de Foz Côa, Pinhel e Lamego, embora a nossa proposta e expectativa sejam as de completar, tanto quanto possível, o elenco de todas as comunidades criptojudaicas do antigo império. Os investigadores do Laboratório de Estudos Judaicos, nos quais eu me integro, têm como missão, para lá da já mencionada supervisão e normalização do resultado das investigações, eles próprios produzirem os seus estudos sobre algumas destas comunidades. O Laboratório de Estudos Judaicos manifesta desde já o seu interesse em agregar a esta colecção estudos de âmbito convergente, realizados na perspectiva biológica do DNA pelo que, manifestando tal desejo, propõe aos colegas investigadores académicos da área da Genética uma colaboração positiva.

António Costa de Albuquerque de Sousa Lara
Professor Catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas
Coordenador do Laboratório Estudos Judaicos

Veja mais em: http://www.nunoborrego.pt/loja/judeus-da-guarda-e-outros-cristaos-novos-das-beiras-seculos-xvi-xviii/